Desde meados da década de 90 que o rodeio brasileiro tem vindo numa crescente no cenário nacional, passou a ser reconhecido pelo público como uma opção saudável de esporte e laser, onde se pode desfrutar de momentos de descontração em família.O rodeio brasileiro há alguns anos era visto apenas como um detalhe dentro de um evento onde eram os shows o maior atrativo para as festas e exposições, além da área de alimentação e parques de diversão.
Isso se dava, em parte, porque a visão que se tinha do rodeio era ainda a visão equivocada de que peão de rodeio não tinha cultura e era um ”cigano”, que o rodeio só servia para maltratar os animais, pois no inicio eram rodeios de pequeno porte e feitos sem nenhuma estrutura e sem acompanhamento técnico e, conseqüentemente, sem muitas regras. Naquela época eram mencionados apenas alguns rodeios de renome, como Barretos, Jaguariuna e Americana em São Paulo, por exemplo, que eram eventos que já investiam em marketing e divulgação à nível nacional, com grandes patrocinadores e divulgação na mídia.
No final da década de 90 já era mais comum se ouvir falar de grandes festas de rodeio, que apesar de ainda terem o apelo de uma grade de shows muito ”rica” já começava a dar um grande destaque para o rodeio profissional, anunciando premiações de carros e motos zero km e de grandes quantias em dinheiro. Foi nesta época também que locutores de rodeio começaram a ter um maior acesso à mídia nacional, como Marco Brasil que, com o advento da criação do segmento de CDs de rodeio, criados pela Paulo Gomes Assessoria, se transformava num grande vendedor de discos no Brasil, e no exterior, e ganhava notoriedade em vários programas de TV, revistas, etc. Também nesta época se começava a ouvir falar de grandes competidores brasileiros que começavam a despontar no rodeio americano, vencendo torneios e amealhando prêmios de milhares de dólares, como Adriano de Moraes.
Na virada do século o rodeio brasileiro já estava definitivamente fixado no cenário cultural brasileiro, sendo o responsável por mega eventos em todo o pais e que reunia milhares de pessoas que já eram adeptos do esporte e freqüentavam as festas de peão e exposições com a expectativa de ver um show também nas arenas, com locutores e suas belas performances, chegando de helicóptero, camionetes, etc, numa abertura pirotécnica onde se unia a beleza plástica do evento aos momentos de fé e alegria das aberturas, além de shows de montarias.
Os peões passaram a ser chamados de competidores e as companhias de rodeio começaram a investir em tecnologia de ponta na criação de novos plantéis de animais voltados ao esporte, surgindo animais que até se transformaram em verdadeiros mitos e foram motivo de especiais em programas como Globo Esporte e até em novelas globais, como aconteceu com o touro Bandido, da Cia. Paulo Emilio (São José do Rio Preto/SP).
Nestes mais de vinte anos o rodeio só cresceu e se firmou, modificando a visão do publico em geral, que hoje lotam as arquibancadas na hora do rodeio e não apenas, como antigamente, na hora dos shows de palco, mas, como em todas as atividades culturais ou esportivas, existe sempre uma busca de novos modelos e novos formatos e, infelizmente, o hábito de se copiar o que existe em outros países para tentar implantar no jeito brasileiro. Com o rodeio não foi diferente e, ultimamente, vem se criando um estilo de rodeio, denominado ”estilo técnico”, onde o formato é idêntico ao americano, ou seja, o destaque fica apenas para a montaria, para o animal e o competidor, que na verdade são os principais ”artistas” da festa chamada rodeio.
Tudo o que é feito no sentido de melhorar e inovar, tem que ser bem vindo e o sistema americano de rodeio traz muitas inovações e vantagens ao rodeio, mas, o grande problema o publico americano tem outro perfil e não podemos, na busca de imitar o estilo deles, dar cabo ao formato é que o rodeio tradicional, o conhecido rodeio sertanejo ou até mesmo rodeio show, simplesmente eliminando e deixando para tras.
Hoje começa a ser comum os rodeios serem organizados por empresas ou profissionais que padronizaram um tipo de rodeio ao estilo americano e as vezes são até etapas de torneios americanos, onde a preocupação esta voltada apenas para a pontuação dos competidores e animais, dentro de um padrão ao qual nem contestamos, o problema esta na descaracterização da festa do peão boiadeiro, que tem a tradição de aberturas onde o locutor interage diretamente com o publico e com a cidade, pois são reunidos na arena, todos os dias antes das montarias, praticamente todos os participantes da festa como comissão organizadora, patrocinadores, competidores, tropeiros, etc,.
No rodeio tradicional se evidencia a participação dos locutores, principalmente nos momentos de fé e louvor, feitos justamente para criar toda uma corrente de fé e religiosidade, que acaba interferindo diretamente no andamento dos trabalhos, haja vista a devoção de todos os competidores, independente de crença, que acreditam estarem protegidos neste momento.
Não cabe a discussão de qual estilo é o melhor ou o mais correto, mas sim, entender que o rodeio brasileiro, assim como o futebol, o basquete e inúmeros outros esportes, tem suas particularidades, tem seu formato próprio. Há que se entender que o Brasil é composto , em quase sua totalidade, por cristãos e que o povo brasileiro, diferentemente de outros povos não latinos, tem como característica principal a alegria e a descontração e que vão para os eventos justamente a procura disso, o que exige que os eventos sejam organizados e preparados dentro de um mix que leve alegria e descontração, dentro de uma estrutura moderna e organizada, com padrões técnicos e de alto nível para que atraia o maior numero de pessoas e que faça o esporte crescer mais a cada dia.
Não somos contra a evolução, muito menos à organização do rodeio por empresas especializadas em criação de circuitos, torneios ou o que valha, somos contra, sim, à intolerância e à atitudes de pessoas que querem simplesmente transformar esse maravilhoso esporte, que é alegre, envolvente e cheio de fé e emoção, em um evento frio, onde só existe a disputa, dentro e fora das arenas, por poder e ganhos financeiros, da criação de um sistema intolerante e de grupos com interesses próprios.
Paulo Gomes
Empresário e Produtor Artístico